O Leão Negro da Patrulha

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O Leão Negro da Patrulha

Mensagem por NPC em Dom Nov 26, 2017 4:10 pm

Septão Geibard sentia o gelo por todo o corpo, adentrava pelo manto negro, pelas cotas de malha e pela pele fina. Sentia os ossos tremendo e rangendo. E por isso rezava naquele pequeno septo. Por isso e para que os sete deuses não o abandonassem naquela terra de deuses antigos, não com o compromisso que assumira para si.
 
O corpo já passado dos quarenta doía e pesava, a espada em sua cintura era mais curta que uma espada normal, fato fruto de um treinamento tardio tanto de técnica físico. Os cabelos outrora loiros agora eram secos e meio embranquecidos e o manto negro escondia os poucos músculos.
 
Geib faça isso por nós, traga Lior de volta a sua casa dos Deuses”. Os dentes trincaram com a memória, esse era mais um motivo de todas aquelas rezas, retirar de sua mente as memórias daquela mulher “Mas, nem sempre os deuses são amigos e piedosos”.
 
Quando já estava perdendo a noção do tempo passado dentro das paredes do Septo, ouviu a porta abrir e o ar gélido invadir com mais força ainda. Coberto por mantos e panos negros e com duas espadas presas a sua cintura, um irmão da Patrulha entrou no cômodo.
 
-Geibard, o Primeiro Patrulheiro te quer agora na sala dele, você foi chamado diretamente pelo Leão negro para a patrulha de caça à Serpente Vermelha. –Disse o jovem sorrindo despreocupado. “Sor Kay Avester” lembrou Geibard, “O melhor que a Patrulha vê desde Mallister Bolton, um cavaleiro como esses não devia estar sobre ordens do Leão Negro.” - Sabe que Sor Bennet odeia atrasos e recusas.
 
-Obrigado Kay, que os sete te protejam.
 
Geibard se levantou com calma, suava frio e tinha um péssimo pressentimento. Virou-se olhando para baixo e apertou a espada na cintura. Kay fez um sinal para que o segui-se.
 
Fora do septo o frio era como centenas de agulhas penetrando e o septão quis apenas voltar para dentro das paredes do septo sob a visão de seus deuses, mas tinha que continuar se movendo. O gelo acumulado era pouco para o inverno, mas bastante para o verão e cobria todas as construções de Castelo Negro.  O som de espadas batendo vinha do pátio da patrulha junto com gritos de ordens e reunião de suprimentos. No meio do caminho o septão não pode se impedir de olhar.
 
Eles ainda estavam ali, os corpos pendurados enforcados, congelados e negros como seus mantos. Geibard tentou rezar a visão deles, mas apenas existia ódio em si, haviam sido acusados de conspiração contra o Senhor Comandante “Mas, não foram eles assassinaram dezenas de irmãos sobre a desculpa de caçar um selvagem habilidoso o bastante para ser um Guarda Real, não foram eles que abandonaram os deuses a que deveria servir...”. Geibard olhou para Kay e o pesar era visível no olhar do cavaleiro, mas era mais pena que ódio. O septão sabia que Kay era um dos homens de Leão Negro “Como pode um homem tão forte acreditar nas palavras de um mentiroso como Lior?”.
 
Andaram mais alguns metros até uma torre, subiram as escadas até o topo e bateram na porta de madeira grossa. Um homem esguio, alto, curvado, com um colar cheio de argolas e já passado de 60 luas abriu a porta. Kay adentrou e cumprimentou o meistre, Geibard fez o mesmo.
 
Dentro da pequena sala tinha apenas uma grande mesa e alguns papéis, Kay foi até uma das cadeiras e se sentou, mas Geibard ficou paralisado por um tempo “Por que eu estou aqui? O que eles querem comigo”.
 
Sentados nas outras cadeiras, patrulheiros de alta estima aguardavam o septão fazer qualquer ação. E sentado a ponta da mesa Lior Locke, o Leão Negro, o fitava com as orbes escuras cheias de frieza e desprezo. Da mesma idade de Geibard o Senhor Comandante não podia ser mais diferente, os curtos cabelos negros ainda cobriam sua cabeça, a barba ainda tomavam-lhe o queixo, era alto e grande e o frio parecia não existir para ele.
 
 Ao seu lado, primeiro patrulheiro Sor Bennet Hills afiava uma espada. Do outro Kay Avester batia os dedos na mesa com um falso sorriso no rosto.
 
-Sente-se Geibard. – Disse o Comandante.
 
O septão sentou na parte mais afastada da mesma ainda sem confiança.
 
Eram 15 pessoas ao todo na reunião, Geibard era o único que não era um patrulheiro do grupo. Apenas conseguia olhar para o senhor comandante, tentará falar com ele por muito tempo, mas receberá apenas desprezo. “E agora ele me chama para uma reunião de alta importância?”
 
-Nós últimos tempos temos sofrido bastantes com os ataques da Serpente Vermelha. – Começou Sor Bennet Hills. -Vários de nossas expedições foram emboscadas por esse selvagem e muitos dos nossos melhores homens foram levados por suas lâminas- Septão Geibard apertou o punho embaixo da mesa. - E nós últimos dias alguns poucos intendentes começaram a duvidar das intenções do Senhor Comandante levando nós a puni-los.
 
-Não temos mais espaço para tais confusões e falhas. - O Leão Negro tomou a palavra. –Por sorte, nossa última expedição nos rendeu boas informações sobre o paradeiro de Serpente Vermelha.  Nós vamos atrás dele...
 
Um dos patrulheiros abriu um mapa e apontou um local a nordeste perto de um vale de montanhas.
 
-Segundo o selvagem que capturamos é ali que fica morando em seu tempo normal o Serpente Vermelha. – Apontou e depois moveu o dedo pelo mapa em direção aos vales. – Tomaremos um caminho pelos vales que nos permitirá chegar rapidamente até atrás de onde está a Serpente Vermelha, depois o atacaremos com outra força pela frente, quando ele reagir nós vamos atacar ele por trás numa investida rápida.
 
O Leão Negro olhou para Kay Avester. –Você comandará o grupo que realizará o ataque, deve ir com poucos para poder ser rápido o bastante para chegar sem ser percebido até a passagem, por isso escolha bem seu grupo. – Sor Kay concordou com a cabeça e se levantou, deu uma batida no ombro de algum dos patrulheiros e esses também se levantaram, deixaram a sala logo após.
 
-Sor Bennet, Sor Allester, vocês vão pegar um pequeno grupo também e iniciar uma expedição simples para oeste.  Sor Bennet já sabe o local por onde prosseguir não? – O primeiro patrulheiro assentiu- Devem fazer com que nosso grupo de ataque pareça parte de uma investida maior em vez de uma isca. Mas devem se manter longe o bastante para eles ainda caírem na armadilha. E não escolham os melhores homens possíveis. Esses devem estar com Kay e Serpente Vermelha tem que acreditar que estamos desesperados.
 
Ambos os homens assentiram. E Lior Locke se virou para Geibard. O septão apertou ainda mais as mãos.
 
-E você Geibard, você liderará nossa isca. – E Geibard engoliu em seco.
 
-Mas, senhor, eu sou apenas um intendente, como posso eu liderar um grupo de patrulheiros?
 
-Não estará liderando patrulheiros. - Lior Locke respondeu sem demonstrar nenhum sentimento- Estará liderando outros intendentes como você.
 
- Mas, senhor, como nós podemos sobrevi...
 
-Acha que eu não sei que é você que está liderando esse grupo de revoltosos? – E Geibard travou. – Normalmente apenas executaria vocês como executei aquele pequeno grupo que quis gritar demais, mas fui bondoso o bastante para permitir a vocês que sirvam a patrulha em vez de simplesmente serem executados. Então septão Geibard, você vai liderar o grupo que eu e Bennet escolhemos. E não adianta tentar fugir, Sor Bennet o acompanhará durante todo o começo do caminho.
 
- Sairemos amanha de manha. - Foi à palavra final do Leão Negro.
 
Os homens saíram da sala e Geibard ficou sozinho, o septão apenas olhava para baixo, apático “Eles vão nos matar lá, vão apenas nos calar sem nem deixar que nossos corpos sejam vistos...”. Saiu da sala de cabeça baixa e foi andando até sua cela de dormir.  Não conseguiu dormir. A mão tremia segurando a espada.
 
Quando o dia começou a nascer, o grupo que partiria naquela expedição já estava formado e montado. Retirando apenas Sor Kay Avester e seus homens, Geibard ouvira quando eles partiram no meio da noite. Sor Bennet Hills liderava os irmãos.
 
O Septão viu cada uma das pessoas com as quais se aproximara na patrulha no meio daquela força, a grande maioria nem patrulheiros eram. “E agora terei de leva-los a morte certa... Mas o que fazer, para onde podemos fugir quando a muralha é nossa própria inimiga?”. Geibard nem percebeu quando o portão foi aberto e eles atravessaram a grande construção de gelo, perdido em pensamentos e memórias “Salve Lior, traga-o de volta para a casa dos sete, faça isso por nós... Desculpa Milli, não pode cumprir minha promessa, mas porque você confiava tanto nesse desgraçado? Por que gostava tanto dele? Nós não éramos o bastante? Eu não era o bastante”. O grupo isca já havia se separado dos outros patrulheiros naquele momento, seguiam sozinhos por entre o caminho de neve e árvores. Medo e ódio consumiam Geibard quando ele fez sua decisão.
 
“Não deixarei que o Leão Negro toque um dedo nesses homens”.
 
-Irmãos, hora de mudar de caminho, vamos subir pela floresta em direção aos morros. – ordenou o septão.
 
Mesmo sem entender o grupo obedeceu e adentrou a floresta densa, saindo da trilha conhecida pela patrulha “Lior Locke e seus homens conhecem apenas os caminhos de seus mapas, não podem nós encontrar fora deles”. Ainda não sabia como prosseguiria depois de se salvar daquela armadilha, mas teria tempo de pensar nisso mais tarde.
 
Geibard deixou um pequeno sorriso sair de seus lábios, mas ai ele ouviu o grito. E flechas voaram sobre ele e seus homens.
 
“O que?” Geibard não entendeu quando cavalos e pessoas começaram a morrer e uma confusão se iniciou. “Como, Lior não deveria nós encontrar tão rápido?”. A chuva de flechas deu uma pausa, poucos homens haviam morrido, mas muitos cavalos sim. E quando os irmãos começaram a correr em fuga a maioria estava a pé, e alguns com tornozelos, pernas e até costelas fraturadas pela queda do cavalo, e quando os selvagens chegaram eles cortaram suas costas, gargantas e espetaram suas barrigas sem piedade.
 
E Geibard o viu.
 
Um selvagem enorme carregando duas lâminas em mãos parecia liderar o ataque e Perseguição dos selvagens na direção dele. Vestia panos negros rasgados e usava penas e ossos como colares e braçadeiras, tinha uma enorme cicatriz sobre o olho esquerdo que serpenteava pela cara e o longo cabelo ruivo o tornava ainda mais medonho.
Os irmãos fugiram do ataque feroz, mas o terreno irregular era difícil para humanos a pé que não o conheciam e eles eram logo alcançados, Geibard viu quando aquele selvagem ruivo e medonho alcançou um dos únicos patrulheiros que tinha ali e arrancou seu braço fora, quatro irmãos tentaram salvar o homem mais foram todos mortos em sequência pelo selvagem. Para piorar, os poucos a cavalo eram mirados pelas flechas que os tirava a montaria; e o terreno também fez vários dos animais quebrarem suas pernas em pisadas erradas.
 
No meio do desespero e do sangue poucos se salvavam, alguns tentavam e conseguiam matar os selvagens mais próximos, mas nenhum conseguiu fazer nada ao selvagem ruivo e suas lâminas assassinas. Geibard não percebeu quando foi, mas ele tinha retornado a trilha no qual iniciara o caminho.
 
Uma flecha atravessou seu peito e outra sua coxa. O septão caiu e viu os selvagens ao seu lado, estavam cercados e machucados e não eram lutadores. Restava para eles apenas a morte. E tinha aquele selvagem, aquele maldito selvagem ruivo com a cicatriz serpentina “Se eu apenas tivesse acreditado...” E Geibard chorou enquanto sentia o sangue cair e se espalhar na neve e via os selvagens se aproximando cada vez mais.
 
Foi quando flechas voaram contra os selvagens e irmãos de manto negro apareceram vindos de trás. Sor Kay Avester liderava-os e passou por Geibard em direção a três selvagens a sua frente, desviou do primeiro golpe e puxou apenas uma espada cortando a perna do selvagem, defendeu o golpe do segundo batendo para cima e cortou abrindo o peito, sacou a segunda espada e num movimento rápido defendeu a lâmina do terceiro com uma espada e abriu sua cabeça com a outra.
 
A última coisa que Geibard viu antes do corpo ficar frio e sua consciência ser atraída ao vazio foram Sor Kay Avester e a Serpente Vermelha se confrontando.
 
Ele não saberia dizer qual era melhor.
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